José Evaristo Silvério Netto

(responsabilidade do autor)

Construção de Acúmulos e debate sobre a práxis:
Crítica ao Praticismo Revolucionário
, texto do professor Sergio Lessa (Universidade Federal de Alagoas)

O texto aborda questões centrais para a tomada de consciência crítica sobre a militância social e as lógicas e armadilhas que podem nos conduzir a práticas contrarrevolucionárias. Nesta toada, a discussão que texto trás discorre sobre a “práxis stalinista e o novo militante”, “voluntarismo”, “o praticista e a teoria” (capítulos do texto) e a necessidade de síntese de teorias para a revolução. Entendo ser interessante, com base no texto, problematizar a militância submissa às demandas imediatas e pontuais, identificando o praticismo, o voluntarismo (cego, alienado) e a disputa burocratizada pelo poder nos partidos, sindicatos e outras esferas dos aparelhos políticos, como importantes fatores limitantes à luta de massas contra a exploração racista e capitalista. Os fragmentos a seguir trazem focos discursivos interessantes para atiçar a libido:

 

Desconhecedores da história, mesmo da história brasileira mais recente, os praticistas são incapazes de um projeto estratégico. Não lhes resta outra alternativa, por isso, senão responder aos acontecimentos correndo atrás dos fatos como jumentos atrás da cenoura: não há possibilidade de alcançá-los (pag. 12).

 

Como toda ação é desprovida de uma orientação estratégica, apenas um enorme volume de prática pode manter o militante à tona na luta política. Busca-se, antes de mais nada, conquistar ou manter «postos» em sindicatos, associações ou no poder Legislativo e Executivo. Isto requer uma politicagem cotidiana, de conchavos e articulações, que exaure as suas energias. Além disso, nas «frentes de massa», a luta por um lugar ao sol não é menos esgotante, tornando o cotidiano impermeável à «prática teórica». Ao invés do revolucionário elevar o nível teórico das massas oprimidas (ou, se isto não é possível em todos os momentos históricos, ao menos de suas lideranças), o praticista termina por se rebaixar ao nível cultural a que a alienação burguesa reduziu os trabalhadores. Desse modo, os pretensos revolucionários –tal como ocorreu no stalinismo — são individualidades cuja reprodução social se dá sem qualquer reflexão teórica digna do nome. Cegos, sem enxergarem a essência da realidade, articulam suas atividades tendo por eixo aspectos fugazes, fenomênicos, secundários, do processo histórico: o reformismo a que nos referimos acima se articula, de forma reflexivamente determinante, a uma prática ineficiente, tanto do ponto de vista reformista como do revolucionário (pag. 13).

 

Os debates e a construção coletiva de conhecimento para a práxis da militância, focando não só no acúmulo teórico, e menos ainda somente na contemplação das demandas de ordem prática e imediata e no acúmulo de intervenções políticas na prática, mas sim na construção de um projeto político coerente e com intenções revolucionárias evidentes que subsidiem a intervenção prática de rua, é fundamental para entendermos a influência do stalinismo e comunismo vulgar na prática militante contemporânea e para superarmos esta condição.

Uma forma de subverter esta prática contrarrevolucionária é através de uma produção teórica suficientemente radical e significativa que subsidie uma prática revolucionária. Identifico o Projeto Político como esta produção teórica que, se construída coletivamente, se estiver coerente com a história e de fato orientada aos interesses e a uma direção transgressora da lógica geradora das desigualdades, irá nos orientar e respaldar nas intenções e ações, não para nos prender em uma camisa de força dogmática, mas para nos situar no tempo e no espaço de forma coerente e produtiva para o enfrentamento da exploração racista e capitalista.