Ei São Paulo, terra de arranha-céus, a garoa rasga a carne, é a torre de Babel”. (Racionais – Negro Drama)

O trecho de Negro Drama traduz bem a tarde fria e chuvosa de Sampa, na terça-feira, dia 08 de junho, quando Fábio e eu, representando nosso coletivo, Kilombagem, fomos buscar o jovem Kleaver Cruz, 28 anos, membro do Black Lives Matter , de Nova Iorque, para fazermos um rolê no centrão da capital mais rica do Brasil.

Quando Marisa Fefferman nos colocou na missão de sermos um dos grupos a recepcionar o militante, fiquei pensando onde levá-lo, ela sugeriu que seria muito bom ele conhecer nossa realidade, nossas quebradas. Assim pensei num roteiro que chamei de Roots, para lhe mostrar os pontos PRETOS no centro, pra que tirasse suas próprias conclusões se “existe amor ou não em SP”.

 Encontramos Kleaver no hotel e de cara foi muita afinidade e simpatia recíproca. Marisa nos avisou que o mano falava Espanhol com fluência e algumas coisas em Português, o que nos causou alivio e admiração. Perguntamos sobre sua disposição para caminhar ao que respondeu que estava muito bem. Então saímos do Largo do Arouche e fomos em direção à Praça Princesa Isabel, onde estão localizados os moradores da craco após a ação violenta da PM uma semana antes.

Entramos na craco e na curta caminhada, fomos trocando ideias sobre as similaridades da ação do Estado no Brasil e nos EUA, sobre o racismo institucional e a violência policial. Observando na prática a importância de movimentos que combatam o genocídio da população negra no mundo todo, fazendo com que todos possam abraçar a causa de que as “Vidas Negras Importam” (tradução para Black Lives Matter). Kleaver ficou perplexo com a condição de vida encontrada ali, e nos pergunta: “eles vêm aqui para morrer?”. Ao que respondemos que não é isso que as pessoas almejam. Nos contou que em Los Angeles, no distrito chamado Skid Row, a situação é muito similar, mas que nunca esteve lá, e em NY não há nada parecido. Estava visivelmente consternado e empático à nossa luta. Contamos sobre as ações da Craco Resiste, falamos sobre a especulação imobiliária, e o interesse dos empresários na região, e como nosso povo vai sendo expulso ou morto pra dar lugar à classe média branca, o que nos respondeu que nos EUA se passa o mesmo.

Enquanto passamos pela estação Júlio Prestes a caminho da estação da Luz, perguntei do que ele vivia, que tipo de trampo fazia, ele me olhou e disse que era uma ótima pergunta e contou um pouco sobre sua vida. Kleaver Cruz é do Bronx. Tem 28 anos. Seus avós são da República Dominicana. Fala um pouco de português e outros idiomas, mas tem fluência no Espanhol. Trabalha numa ONG financiada por empresas de brancos ricos, e tem consciência dessa contradição. Trabalha com jovens e mulheres. Dá cursos sobre gênero também. Nos contou ainda sobre seu trabalho junto a organizações que defendem os  descendentes de haitianos que vivem na República Dominicana.

Da Luz seguimos pro Largo do Paysandu, na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Local de encontro e atos históricos do Movimento Negro. Ao entrarmos na Igreja conversamos um pouco sobre religiosidade, nos contou que não é religioso. Depois comentamos sobre Trump, e nos disse que o bom de tudo isso é que o racismo ficou mais evidente, principalmente pros brancos progressistas. Kleaver votou na última eleição presidencial numa candidata negra dos anos 60, como forma de protesto aos candidatos que diz que não o representavam.

Comentamos sobre o Largo São Bento e o nascimento do Hip Hop, e dali seguimos pra Galeria Olido, onde  rolam as aulas de Samba Rock, aproveitando pra comentar sobre a ocupação (então recente) da secretaria de cultura por coletivos culturais da periferia.

Nas grandes galerias mostramos os frequentados salões Black no subsolo da Galeria do Rock, e as lojas com roupas e produtos de influência direta da cultura estadunidense. Ficou impressionado com essa influência, principalmente quando comentei que nossos cinemas exibem hegemonicamente filmes dos EUA, e que precisamos de leis pra termos os filmes nacionais em cartaz. Perguntei se de modo geral têm essa percepção de domínio cultural vivendo lá, nos disse que não, que em geral não estudam a história de outros países, que a escola ensina apenas a história oficial, que a maioria dos estadunidenses não fala outras línguas, e nem tem intenção de sair dos Estados Unidos pra conhecer outros países. Dali paramos pra comer o tradicional pastel com caldo de cana e contar do trabalho escravo nos canaviais.

Os variados temas foram se entrelaçando, Kleaver contou que já conheceu vários países, fiquei curiosa sobre seus 8 meses na China. Falou da China com ternura, reconhecendo os problemas, mas elogiando avanços, como na educação.  Conhece um pouco do funk carioca.

Kleaver discorda do Movimento Negro que acredita que é possível uma ascensão social no capitalismo, não acredita que há lugar para nós no capitalismo. Observa que em muitos países muitos negros não sabem que são negros então quando chegam nos EUA lá se descobrem negros. Tem um projeto de divulgar as alegrias negras como forma de resistência, pq pensa que mesmo com dificuldades temos que viver essa vida plenamente pois só temos uma.

Perguntei ainda sobre as séries do momento e ele disse que não gostou muito de Dear White People, por ser apenas um recorte, contou que a maioria dos negros não consegue ir pra universidade, mas gostou de alguns personagens e discorda da forma como a protagonista foi retratada. Gostou muito de The Get Down por retratar seu bairro.

Finalizamos nossa caminhada na Baixada do Glicério, região onde eu leciono há 11 anos, e que tem um dos menores IDHs da região central, bairro também conhecido por ter receber muitos imigrantes e refugiados. Visitamos a Igreja da Paz, na Rua do Glicério, conhecida por seu trabalho social juntos aos imigrantes estrangeiros. Contei que na escola recebemos estudantes do Haiti, da Guiné Bissau, do Congo, de Angola, da Namíbia, da Síria, da China, Bolívia, Colômbia, entre outros.

Na despedida, perguntei se estava cansado, ele disse “um pouco”, mas sorriu dizendo que gostou muito, que vê muitas semelhanças entre as condições de vida dos negros no Brasil e em seu país, e que por isso temos que unir forças porque vidas negras importam!